Canção de Dentro
Artists
Daniel V. Melim
Press release
Inauguração 09 de outubro de 2026 Exposição acompanhada por um texto de Carolina Quintela Há uma espécie de vertigem no encontro com as pinturas de Daniel V. Melim. Não se trata apenas de uma vertigem provocada pelo jogo de escalas ou pela sobreposição de figuras, mas de uma sensação mais profunda de desorientação. Através das imagens que o artista constrói, adensa-se a sensação de entrada num universo que parece familiar e que, ao mesmo tempo, escapa à possibilidade de ser reconhecido. Máscaras, corpos parcialmente ocultos, pequenas figuras que surgem misteriosamente, presenças de costas para o observador, flores que assumem uma dimensão quase monumental e aquilo que parecia ser paisagem transforma-se, por vezes, no próprio acontecimento da imagem. Parecem existir, latentes, mundos que contêm outros mundos, aproximando-nos de uma experiência de algo que se pressente antes de se compreender. As figuras representadas, não sendo propriamente retratos, são presenças ambíguas que escapam a uma interpretação única. Ao não revelar a identidade das personagens, o artista abre espaço à construção de um universo imagético coletivo, entre o humano, a ancestralidade, o ritual e o fantástico. A mesma operação acontece com as flores, presentes nas pinturas que se encontram na sala interior do piso inferior da galeria. Quando ocupam o centro da composição, deixam de ser simplesmente elementos vegetais e parecem adquirir uma qualidade de personagem. Assistimos, assim, a uma inversão: o humano torna-se anónimo e o vegetal ganha presença, deslocando as hierarquias habituais entre aquilo que consideramos sujeito e aquilo que consideramos cenário. Também a escala que estas formas adquirem assenta em mais do que uma questão de dimensão. É uma forma de provocar o corpo e de alterar a nossa relação com a imagem. Nesse sentido, a própria Ilha da Madeira, terra natal do artista, parece informar a sua relação com as proporções. A proximidade entre as montanhas e o mar, a presença abrupta das escarpas e a experiência de estar frequentemente abaixo ou muito acima de uma paisagem que se ergue ou se afunda fazem da geografia uma experiência corporal. No trabalho de Melim, essa experiência reaparece através das figuras pequenas e dos espaços que as excedem, introduzindo uma relação desconcertante entre aquilo que observamos e aquilo que parece observar-nos. O que é grande e o que é pequeno, o que ocupa o centro e o que permanece à margem deixam de ser categorias estáveis. A partir daqui o trabalho abre-se a outros imaginários. A ancestralidade não aparece como uma narrativa linear ou como um passado encerrado, mas como uma presença que continua a agir no presente. A identidade torna-se, assim, porosa e constrói-se através de deslocamentos, encontros e correspondências, entre aquilo que herdamos e aquilo que transformamos. Em estreita relação com esta dimensão ancestral, a natureza parece guardar uma memória que ultrapassa o indivíduo. Não funciona apenas como cenário, mas como matéria de reminiscência. A imagem torna-se um lugar onde o humano e o mundo natural deixam de ocupar posições inteiramente separadas. Também os títulos participam desta abertura – A oferenda, A benção permite recomeçar, A Oficina das Orações, Sendo a ponte entre pai e filho. O perdão, Toda a festa gera uma criança – são palavras de passagem, de ligação, conciliação e transformação. Pequenas orientações de leitura através das quais a pintura se expande e permanece aberta ao espectador. Nesse sentido, parece existir, igualmente, uma dimensão ritualista na exposição, não necessariamente ligada a um ritual específico, mas a uma gramática de gestos através dos quais cada um se relaciona com o outro, com a comunidade, com a terra e com aquilo que o antecede. Ao percorrermos o espaço expositivo, assistimos ainda à expansão da própria pintura. Sobre um tambor é projetado um vídeo de uma performance em que o som e a terra prolongam fisicamente o universo das pinturas. É precisamente nesse espaço entre o familiar e o desconhecido que Canção de dentro se instala. A imagem não oferece respostas imediatas, mas conduz-nos por uma experiência de estranhamento, memória e descoberta. As imagens emanam uma energia muito particular, não porque encerrem um significado, mas porque parecem manter alguma coisa em aberto. Figuras, plantas, gestos e paisagens permanecem entre estados, sem se fixarem completamente numa forma ou numa narrativa. Talvez seja nessa condição de potência que conservem o seu mistério, e que a pintura se torne, também, uma forma de escutar aquilo que permanece dentro. Carolina Quintela --- Opening October 9, 2026 Exhibition accompanied by a text by Carolina Quintela There is a kind of vertigo in encountering Daniel V. Melim’s paintings. It is not merely a vertigo caused by the interplay of scales or the overlapping of figures, but a more profound sense of disorientation. Through the images the artist constructs, the sensation of entering a universe that seems familiar yet, at the same time, eludes recognition, grows ever stronger. Masks, partially concealed bodies, small figures that appear mysteriously, presences with their backs turned to the viewer, flowers that take on an almost monumental scale, and what seem to be landscapes sometimes transform into the very event of the image itself. There seem to be latent worlds that contain other worlds, bringing us closer to an experience of something that is sensed before it is understood. The figures depicted, while not strictly portraits, are ambiguous presences that defy a single interpretation. By not revealing the characters’ identities, the artist creates space for the construction of a collective visual universe, spanning the human, ancestry, ritual, and the fantastical. The same process occurs with the flowers, which appear in the paintings situated in the inner room of the gallery’s lower level. When they occupy the center of the composition, they cease to be merely plant elements and seem to take on a character-like quality. We thereby witness a reversal: the human becomes anonymous, and the plant gains presence, shifting the usual hierarchies between what we consider the subject and what we consider the setting. The scale these forms take on is also based on more than just a question of size. It is a way of engaging the body and altering our relationship with the image. In this sense, the island of Madeira itself — the artist’s birthplace — seems to shape his relationship with proportions. The proximity between the mountains and the sea, the abrupt presence of the cliffs, and the experience of frequently being below or far above a landscape that rises or sinks make geography a bodily experience. In Melim’s work, this experience reemerges through the small figures and the spaces that exceed them, introducing a bewildering relationship between what we observe and what seems to observe us. What is large and what is small, what occupies the center and what remains on the margins cease to be stable categories. From this point, the work opens up to other imaginaries. Ancestry does not appear as a linear narrative or as a closed-off past, but as a presence that continues to act in the present. Identity thus becomes porous and is constructed through displacements, encounters, and correspondences between what we inherit and what we transform. Closely linked to this ancestral dimension, nature seems to hold a memory that transcends the individual. It functions not merely as a backdrop, but as the stuff of reminiscence. The image becomes a space where the human and the natural world no longer occupy entirely separate positions. The titles also contribute to this openness — A oferenda (The offering), A benção permite recomeçar (Blessing allows for a restart), A oficina das orações (The workshop for prayers), Sendo a ponte entre pai e filho. O perdão. (Being the bridge between father and son. Forgiveness.), Toda a festa gera uma criança (Every party brings a child into the world) — are words of passage, connection, reconciliation, and transformation. They serve as small guides for interpretation through which the painting expands and remains open to the viewer. In this sense, there also appears to be a ritualistic dimension to the exhibition; not necessarily tied to a specific ritual, but to a grammar of gestures through which each person relates to others, to the community, to the earth, and to what came before. As we move through the exhibition space, we also witness the expansion of the painting itself. A video of a performance is projected onto a drum, in which sound and earth physically extend the universe of the paintings. It is precisely in this space between the familiar and the unknown that Canção de dentro takes root. The image offers no immediate answers, but leads us through an experience of estrangement, memory, and discovery. The images exude a very particular energy, not because they contain a specific meaning, but because they seem to leave something open-ended. Figures, plants, gestures, and landscapes remain in a state of limbo, without settling completely into a single form or narrative. Perhaps it is in this state of potential that they retain their mystery, and that painting, too, becomes a way of listening to what remains within. Carolina Quintela
- Through
- 05 December 2026
- Venue
- Monitor
- Address
- Rua da Páscoa 91
1250-091 Lisbon
- Hours
- Tue–Fri 13:00–19:00; Sat 15:00–19:00
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